ARTIGO



Sim, precisamos falar de consciência negra (preta)



“Lembremos que uma das funções da ideologia é naturalizar o que não é natural. Trezentos anos de dominação senhorial são mais do que suficientes para naturalizar a “inferioridade do negro”.” Gas-Pa


Sim, precisamos falar da história do povo preto que não é contada na literatura burguesa e euro-centrada.

Em todo o território nacional é travada uma luta fragmentada (de municípios), dos movimentos negros para tornar o dia 20 de novembro um feriado.

A situação é polêmica que em algumas cidades já foi conquistado, mas longe de ser estadual muito menos nacional.

E a gente se pergunta Por quê? Por qual motivo é polêmica?

Aqui em Porto Alegre, por exemplo, já passou pelo parlamento e até judicializado, mas a proposta foi rejeitada em todos esses espaços de decisão.

Talvez precisemos estudar, sobre como foi decretado alguns feriados no país, no estado ou no município. Mas, que eu saiba, tem tantos feriados que simplesmente foram instituídos e não se discute nisso!

Vamos falar de Tiradentes? O herói “representante do povo brasileiro” não é? É uma história que aparece nos livros didáticos, e muito, por sinal. Então sabemos que Tiradentes é um personagem que aparece na chamada inconfidência mineira que foi basicamente uma luta da elite mineira contra impostos abusivos do império que não deixava a burguesia brasileira se desenvolver.

Já Zumbi dos Palmares, a quem lembramos no dia 20 de novembro como símbolo histórico da luta do povo negro contra a escravidão, no período do Brasil Colonial, não pode ser feriado? Por quê? As razões são óbvias! Mas como sempre, temos que falar o óbvio, então, vamos lá.

O Brasil é só mais um país com a segunda maior população preta do mundo, ficando atrás somente da Nigéria, resultado do comércio negreiro de maior volume da história, que importou cerca de 6 milhões de africanos.

A resistência dos escravos, a primeira classe trabalhadora do Brasil (que não se extrai dos livros didáticos, a final não se pode revelar que os negros NÂO sofreram calados) incomodou e muito, os senhores.

Durante três séculos o principal incômodo causado ao escravismo brasileiro era a rebeldia de sua classe escrava que se manifestava de várias formas. indo do suicídio, passando pelo assassinato de seus senhores, resvalando nas greves chegando à quilombagem com direito a resgate de escravos nas fazendas – ou, várias dessas formas combinadas. Dentre elas, a quilombagem foi a que mais contribuiu para enfraquecer o escravismo. Cada grupo de escravos – por menor que fosse – fugido das fazendas significava prejuízo ao seu senhor Além disso, mais dinheiro era gasto pra se remunerar as milícias e custear as incursões nas matas para capturar os fugitivos e desarticular os quilombos. Cada escravo fugido era um escravo a menos produzindo para o sistema. E, dependendo do nível de organização de um determinado quilombo, ele produzia o suficiente para comercializar com o mundo branco, concorrendo com os senhores escravocratas. E assim a quilombagem contribuiu muitíssimo para desorganizar a economia escravista, tornando-se a primeira forma expressiva de organização combativa da classe trabalhadora brasileira. E já data dessa época a prática de negar ao preto rebelde o caráter de preso político. Por mais que sua ação organizada e coletiva tenha como fim a subversão de uma ordem, o preto subversivo sempre foi relegado ao status de bandido comum.


Como agora me vem com essa de querer feriado no dia que representa um desafio ao senhor branco?


E no Rio grande do sul, observemos a famosa revolução farroupilha, afinal é outro feriado tão importante!

A guerra dos farrapos, outro conflito regional contrário ao governo imperial brasileiro e com caráter republicano, ou seja, uma guerra entre facções da classe dominante. Mas a nossa critica ao fato dessa comemoração não é seu caráter NÂO POPULAR, e sim a traição, a chacina do povo preto que serviu de negócio para dar fim numa guerra que já aparentava ser perdida pelos farrapos.

Os escravos no Rio Grande do sul, conhecidos por Lanceiros Negros, valente tropa que lutou na revolta farroupilha com a promessa de serem libertos, foi covardemente dizimada pelo exército imperial, resultado de um traiçoeiro acordo entre David Canabarro (chefe dos farrapos) e o comandante o exército imperial, Duque de Caxias, que aliás, é um herói nacional homenageado no panteão ao lado de Zumbi dos Palmares! Duque de Caxias, um carniceiro do povo paraguaio, assassino de pretos, destruidor de quilombos, tem uma homenagem ao lado de Zumbi dos Palmares, um líder que buscava a libertação dos escravos. Como pode?!

Não será isso uma contradição tamanha?

Revisamos todas as leis pré e pós “libertação” e podemos concluir que a situação de miséria à qual os pretos foram relegados era tão intensa que cientistas previam que essa raça não resistiria mais que um século a tamanhas adversidades. Além de tentar substitui-los com a leva de imigrantes europeus, uma politica nitidamente racista em sua origem.


Ou seja, pra viver na pele negra, tem que ser muito, mas muito forte.


Porque essa mais da metade da população Brasileira são descendentes dos que SOBREVIVERAM a todas as atrocidades.

Dos que sobreviveram ao estupro, e o resultado? “ a linda miscigenação”.

Dos que sobreviveram, mesmo eliminados de qualquer acesso a terra e emprego;

Dos que sobreviveram, mesmo jogados a própria sorte depois da dita “libertação” (condenação à miséria), para virar o exercito industrial de reserva, a final, sua força de trabalho agora é trocada pela de imigrantes europeus que ao chegaram aqui já tinham lotes de terras garantidas;


Dos sobreviventes que não se conformaram nem um minuto;

Aos que sobreviveram e sobrevivem até hoje. Nossa homenagem!

 

Porto Alegre,  20 de novembro de 2017.

DOMINGAS MENDES

 

Para ler mais sobre racismo e luta de classes veja aqui:

http://kilombagem.net.br/pensadores/artigos-textos/o-lugar-do-racismo-na-luta-de-classes-brasileira-o-dilema-do-proletariado-preto/